Jesus era Peripatético
(Max Geringher)
Numa das empresas em que trabalhei, eu fazia parte de um grupo de treinadores voluntários.
Éramos coordenados pelo chefe de treinamento, o professor Lima, e tínhamos até um lema:
"Para poder ensinar, antes é preciso aprender" (copiado, se bem me recordo, de uma literatura do Senai). Um dia, nos reunimos para discutir a melhor forma de ministrar um curso para cerca de 200 funcionários. Estava claro que o método convencional: botar todo mundo numa sala, não iria funcionar, já que o professor insistia na necessidade da interação, impraticável com um público daquele tamanho.
Como sempre acontece nessas reuniões, a imaginação voou longe do objetivo, até que, lá pelas tantas, uma colega propôs usarmos um trecho do Sermão da Montanha como tema do evento.
E o professor, que até ali estava meio quieto, respondeu de primeira. Aliás, pensou alto:
- Jesus era peripatético...
Seguiu-se uma constrangida troca de olhares, mas, antes que o hiato pudesse ser quebrado por alguém com coragem para retrucar a afronta, dona Dirce, a secretária, interrompeu a reunião para dizer que o gerente de RH precisava falar urgentemente com o professor. E lá se foi ele, deixando a sala à vontade para conspirar.
- Não sei vocês, mas eu achei esse comentário de extremo mau gosto, disse a Laura.
- Eu nem diria de mau gosto, Laura. Eu diria ofensivo mesmo, emendou o Jorge, para acrescentar que estava chocado, no que foi amparado por um silêncio geral.
- Talvez o professor não queira misturar religião com treinamento, ponderou o Sales, que era o mais ponderado de todos.
- Mas eu até vejo uma razão para isso...
-Que é isso, Sales? Que razão?
-Bom, para mim, é óbvio que ele é ateu.
-Não diga!
-Digo. Quer dizer, é um direito dele. Mas daí a desrespeitar a religiosidade alheia...
Cheios de fúria, malhamos o professor durante uns dez minutos e, quando já estávamos sentenciando à fogueira eterna, ele retornou. Mas nem percebeu a hostilidade. Já entrou falando:
-Então, como ia dizendo, podíamos montar várias salas separadas e colocar umas 20 pessoas em cada uma. É verdade que cada treinador teria de repetir a mesma apresentação várias vezes, mas... Por que vocês estão me olhando desse jeito?
-Bom, falando em nome do grupo, professor, essa coisa aí de peripatético, veja bem...
-Certo! Foi daí que me veio a idéia. Jesus se locomovia para fazer pregações, como os filósofos gregos também faziam, ao orientar seus discípulos.
Mas Jesus foi o Mestre dos Mestres, portanto a sugestão de usar o Sermão da Montanha foi muito feliz. Teríamos uma bela mensagem moral e o deslocamento físico... Mas que cara é essa?
- Peripatético quer dizer "o que ensina caminhando".
E nós ali, encolhidos de vergonha. Bastaria um de nós ter tido a humildade de confessar que desconhecia a palavra que o resto concordaria e tudo se resolveria com uma simples ida ao dicionário. Isto é, para poder ensinar, antes era preciso aprender. Finalmente, aprendemos.
Duas coisas.
A primeira é: o fato de todos estarem de acordo não transforma o falso em verdadeiro.
E a segunda é: que a sabedoria tende a provocar discórdias.
Mas a ignorância é quase sempre unânime.
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domingo, 25 de março de 2012
Os conceitos não mudam...
Frase da filósofa russo-americana Ayn Rand (judia, fugitiva da revolução
russa, que chegou aos Estados Unidos na metade da década de 1920), mostrando
uma visão com conhecimento de causa:
"Quando você perceber que, para produzir, precisa obter a autorização de
quem não produz nada; quando comprovar que o dinheiro flui para quem negocia
não com bens, mas com favores; quando perceber que muitos ficam ricos pelo
suborno e por influência, mais que pelo trabalho, e que as leis não nos
protegem deles, mas, pelo contrário, são eles que estão protegidos de você;
quando perceber que a corrupção é recompensada, e a honestidade se converte
em auto-sacrifício; então poderá afirmar, sem temor de errar, que sua
sociedade está condenada".
russa, que chegou aos Estados Unidos na metade da década de 1920), mostrando
uma visão com conhecimento de causa:
"Quando você perceber que, para produzir, precisa obter a autorização de
quem não produz nada; quando comprovar que o dinheiro flui para quem negocia
não com bens, mas com favores; quando perceber que muitos ficam ricos pelo
suborno e por influência, mais que pelo trabalho, e que as leis não nos
protegem deles, mas, pelo contrário, são eles que estão protegidos de você;
quando perceber que a corrupção é recompensada, e a honestidade se converte
em auto-sacrifício; então poderá afirmar, sem temor de errar, que sua
sociedade está condenada".
domingo, 29 de maio de 2011
Filhos
Filhos são do mundo; por José Saramago
Devemos criar os filhos para o mundo. Torná-los autônomos, libertos, até
de nossas ordens.
A partir de certa idade, só valem conselhos. Especialistas ensinaram-nos a
acreditar que só esta postura torna adulto aquele bebê que um dia levamos na
barriga.
E a maioria de nós pais acredita e tenta fazer isso. O que não nos impede
de sofrer quando fazem escolhas diferentes daquelas que gostaríamos ou
quando eles próprios sofrem pelas escolhas que recomendamos.
Então, filho é um ser que nos emprestaram para um curso intensivo de como
amar alguém além de nós mesmos, de como mudar nossos piores defeitos para
darmos os melhores exemplos e de aprendermos a ter coragem. Isto mesmo! Ser
pai ou mãe é o maior ato de coragem que alguém pode ter, porque é se expor a
todo tipo de dor, principalmente da incerteza de estar agindo corretamente e
do medo de perder algo tão amado.
Perder? Como? Não é nosso, recordam-se? Foi apenas um empréstimo! Então,
de quem são nossos filhos?
Eu acredito que são de Deus, mas com respeito aos ateus digamos que são
deles próprios, donos de suas vidas, porém, um tempo precisaram ser
dependentes dos pais para crescerem, biológica, sociológica, psicológica e
emocionalmente.
E o meu sentimento, a minha dedicação, o meu investimento? Não deveriam
retornar em sorrisos, orgulho, netos e amparo na velhice?
Pensar assim é entender os filhos como nossos e eles, não se esqueçam, são
do mundo! Volto para casa ao fim do plantão, início de férias, mais tempo
para os filhos, olho meus pequenos pimpolhos e penso como seria bom se não
fossem apenas empréstimo! Mas é. Eles são do mundo.
O problema é que meu coração já é deles. Santo anjo do Senhor... É a mais
concreta realidade. Só resta a nós, mães e pais, rezar e aproveitar todos os
momentos possíveis ao lado das nossas "crias", que mesmo sendo
"emprestadas"; são a maior parte de nós !!! "A vida é breve, mas
cabe nela muito mais do que somos capazes de viver ";
José Saramago
Devemos criar os filhos para o mundo. Torná-los autônomos, libertos, até
de nossas ordens.
A partir de certa idade, só valem conselhos. Especialistas ensinaram-nos a
acreditar que só esta postura torna adulto aquele bebê que um dia levamos na
barriga.
E a maioria de nós pais acredita e tenta fazer isso. O que não nos impede
de sofrer quando fazem escolhas diferentes daquelas que gostaríamos ou
quando eles próprios sofrem pelas escolhas que recomendamos.
Então, filho é um ser que nos emprestaram para um curso intensivo de como
amar alguém além de nós mesmos, de como mudar nossos piores defeitos para
darmos os melhores exemplos e de aprendermos a ter coragem. Isto mesmo! Ser
pai ou mãe é o maior ato de coragem que alguém pode ter, porque é se expor a
todo tipo de dor, principalmente da incerteza de estar agindo corretamente e
do medo de perder algo tão amado.
Perder? Como? Não é nosso, recordam-se? Foi apenas um empréstimo! Então,
de quem são nossos filhos?
Eu acredito que são de Deus, mas com respeito aos ateus digamos que são
deles próprios, donos de suas vidas, porém, um tempo precisaram ser
dependentes dos pais para crescerem, biológica, sociológica, psicológica e
emocionalmente.
E o meu sentimento, a minha dedicação, o meu investimento? Não deveriam
retornar em sorrisos, orgulho, netos e amparo na velhice?
Pensar assim é entender os filhos como nossos e eles, não se esqueçam, são
do mundo! Volto para casa ao fim do plantão, início de férias, mais tempo
para os filhos, olho meus pequenos pimpolhos e penso como seria bom se não
fossem apenas empréstimo! Mas é. Eles são do mundo.
O problema é que meu coração já é deles. Santo anjo do Senhor... É a mais
concreta realidade. Só resta a nós, mães e pais, rezar e aproveitar todos os
momentos possíveis ao lado das nossas "crias", que mesmo sendo
"emprestadas"; são a maior parte de nós !!! "A vida é breve, mas
cabe nela muito mais do que somos capazes de viver ";
José Saramago
sábado, 16 de abril de 2011
Japão, pela Monja Coen

JAPÃO
Quando voltei ao Brasil, depois de residir doze anos no Japão, me incumbi da difícil missão de transmitir o que mais me impressionou do povo Japonês: kokoro.
Kokoro ou Shin significa coração-mente-essência.
Como educar pessoas a ter sensibilidade suficiente para sair de si mesmas, de suas necessidades pessoais e se colocar à serviço e disposição do grupo, das outras pessoas, da natureza ilimitada?
Outra palavra é gaman: aguentar, suportar. Educação para ser capaz de suportar dificuldades e superá-las.
Assim, os eventos de 11 de março, no Nordeste japonês, surpreenderam o mundo de duas maneiras.
A primeira pela violência do tsunami e dos vários terremotos, bem como dos perigos de radiação das usinas nucleares de Fukushima.
A segunda pela disciplina, ordem, dignidade, paciência, honra e respeito de todas as vítimas.
Filas de pessoas passando baldes cheios e vazios, de uma piscina para os banheiros.
Nos abrigos, a surpresa das repórteres norte americanas: ninguém queria tirar vantagem sobre ninguém. Compartilhavam cobertas, alimentos, dores, saudades, preocupações, massagens. Cada qual se mantinha em sua área. As crianças não faziam algazarra, não corriam e gritavam, mas se mantinham no espaço que a família havia reservado.
Não furaram as filas para assistência médica – quantas pessoas necessitando de remédios perdidos-
mas esperaram sua vez também para receber água, usar o telefone, receber atenção médica, alimentos, roupas e escalda pés singelos, com pouquíssima água.
Compartilharam também do resfriado, da falta de água para higiene pessoal e coletiva, da fome, da tristeza, da dor, das perdas de verduras, leite, da morte.
Nos supermercados lotados e esvaziados de alimentos, não houve saques. Houve a resignação da tragédia e o agradecimento pelo pouco que recebiam. Ensinamento de Buda, hoje enraizado na cultura e chamado de kansha no kokoro: coração de gratidão.
Sumimasen é outra palavra chave. Desculpe, sinto muito, com licença. Por vezes me parecia que as pessoas pediam desculpas por viver. Desculpe causar preocupação, desculpe incomodar, desculpe precisar falar com você, ou tocar à sua porta. Desculpe pela minha dor, pelo minhas lágrimas, pela minha passagem, pela preocupação que estamos causando ao mundo. Sumimasem.
Quando temos humildade e respeito pensamos nos outros, nos seus sentimentos, necessidades. Quando cuidamos da vida como um todo, somos cuidadas e respeitadas.
O inverso não é verdadeiro: se pensar primeiro em mim e só cuidar de mim, perderei. Cada um de nós, cada uma de nós é o todo manifesto.
Acompanhando as transmissões na TV e na Internet pude pressentir a atenção e cuidado com quem estaria assistindo: mostrar a realidade, sem ofender, sem estarrecer, sem causar pânico. As vítimas encontradas, vivas ou mortas eram gentilmente cobertas pelos grupos de resgate e delicadamente transportadas – quer para as tendas do exército, que serviam de hospital, quer para as ambulâncias, helicópteros, barcos, que os levariam a hospitais.
Análise da situação por especialistas, informações incessantes a toda população pelos oficiais do governo e a noção bem estabelecida de que “somos um só povo e um só país”.
Telefonei várias vezes aos templos por onde passei e recebi telefonemas. Diziam-me do exagero das notícias internacionais, da confiança nas soluções que seriam encontradas e todos me pediram que não cancelasse nossa viagem em Julho próximo.
Aprendemos com essa tragédia o que Buda ensinou há dois mil e quinhentos anos: a vida é transitória, nada é seguro neste mundo, tudo pode ser destruído em um instante e reconstruído novamente.
Reafirmando a Lei da Causalidade podemos perceber como tudo está interligado e que nós humanos não somos e jamais seremos capazes de salvar a Terra. O planeta tem seu próprio movimento e vida. Estamos na superfície, na casquinha mais fina. Os movimentos das placas tectônicas não tem a ver com sentimentos humanos, com divindades, vinganças ou castigos. O que podemos fazer é cuidar da pequena camada produtiva, da água, do solo e do ar que respiramos. E isso já é uma tarefa e tanto.
Aprendemos com o povo japonês que a solidariedade leva à ordem, que a paciência leva à tranquilidade e que o sofrimento compartilhado leva à reconstrução.
Esse exemplo de solidariedade, de bravura, dignidade, de humildade, de respeito aos vivos e aos mortos ficará impresso em todos que acompanharam os eventos que se seguiram a 11 de março.
Minhas preces, meus respeitos, minha ternura e minha imensa tristeza em testemunhar tanto sofrimento e tanta dor de um povo que aprendi a amar e respeitar.
Havia pessoas suas conhecidas na tragédia?, me perguntaram. E só posso dizer : todas. Todas eram e são pessoas de meu conhecimento. Com elas aprendi a orar, a ter fé, paciência, persistência. Aprendi a respeitar meus ancestrais e a linhagem de Budas.
Mãos em prece (gassho)
Monja Coen
domingo, 13 de março de 2011
Campanha da Fraternidade - 2011

CF 2011: Creio em Deus, Pai Criador
Artigo do Cardeal Dom Odilo Scherer
A Campanha da Fraternidade de 2011 (CF-2011) propõe uma questão de evidente atualidade: fraternidade e a vida no nosso Planeta. Nem é preciso argumentar muito para justificar a escolha desse tema pela CNBB: Já faz tempo que estudiosos estão alertando para o fenômeno do aquecimento global e suas consequências para o clima e para o equilíbrio ecológico.
As conferências mundiais sobre o clima, que congregam as maiores autoridades científicas da área, deixam sempre mais evidente que o sistema produtivo da economia moderna e contemporânea desencadeia intervenções inadequadas do homem na natureza e se constitui numa ameaça real para o equilíbrio ecológico e até mesmo para o futuro da vida na terra. Em contraste com tais constatações, nas mesmas movimentadas conferências sobre o clima, as principais autoridades políticas e econômicas do planeta não conseguem chegar a um acordo sobre as medidas a serem adotadas para sanar o problema e prevenir os riscos. É difícil redimensionar o desenvolvimento econômico, quando a receita é renunciar a certo padrão de consumo dos recursos naturais, que equivale à depredação e depauperamento da natureza. Exigimos da natureza mais do que ela pode oferecer, sem comprometer a sua sustentabilidade.
A CF-2011 convida a encarar seriamente a responsabilidade humana em relação ao futuro da vida no planeta Terra, o “ninho da vida” no universo, a casa comum da grande e diversificada família humana. O Texto Base, que apresenta a proposta da CF, traz argumentos e reflexões sobre o fenômeno do aquecimento global e os motivos que deveriam levar todos a pensar sobre o que é possível fazer e o que não se deveria fazer, para evitar a deterioração do ambiente da vida na Terra. Argumentos bíblicos e teológicos deveriam motivar os cristãos e todos os crentes em Deus a uma verdadeira conversão nos modos de viver e de se relacionar com a natureza, quando ficam comprometidas a qualidade da vida e a fraternidade na família humana. Todos são convidados a se envolverem na CF-2011.
Destaco dois motivos de fundo religioso, que deveriam ser levados em conta por todas as pessoas de fé no tocante à questão ecológica. Primeiramente, tratar bem a natureza e cuidar do pedaço do planeta que ocupamos está implicado na nossa fé no Deus Criador. Professamos a fé no Deus, Criador do Céu e da Terra, não importa como, ou quando isso aconteceu. A ciência pode continuar a pesquisar sobre a origem do universo e da vida na Terra e isso não contradiz a nossa fé no Deus Criador. O certo é que não fomos nós que demos origem a toda essa beleza e grandiosidade. Dizer que tudo isso surgiu por si mesmo é um grande absurdo.
Mas também aprendemos da nossa fé que Deus fez o homem à sua imagem e semelhança, confiando-lhe o cuidado do “jardim da vida”. Embora pequeninos entre as criaturas do grande universo, somos importantes e Deus nos trata com predileção especial. O poeta do Salmo tem consciência disso, quando exclama, admirando o céu numa noite estrelada: “Que é o homem, Senhor, para que dele te ocupes?! No entanto, Tu o fizeste pouco menor que um deus... Tu o colocaste à frente da obra de tuas mãos!” (cf Sl 8). Sim, Deus colocou o mundo à disposição do homem; não para que acabe com ele, e sim, para que dele viva e usufrua, mas também para que zele por ele, qual bom administrador. Cuidar bem da natureza é sinal de fé e de gratidão para com o Deus Criador. Avançar sobre a natureza com a vontade de possuir e dominar é cair novamente na tentação de “ser deuses”, como Adão e Eva no paraíso (cf Gn 3). Quando o homem resolve assumir o lugar de Deus, desprezando seu desígnio, a desordem e o caos entram no mundo, com seus frutos de injustiça, violência e morte.
O outro motivo, relacionado com o primeiro, é de fundo ético e moral: Cuidar bem da Terra, nossa casa comum, é questão de responsabilidade e solidariedade. Os bens da criação foram colocados por Deus à disposição de todas as suas criaturas; descuidar da natureza, ou estragá-la, é falta de respeito e de justiça para com o próximo e para com as futuras gerações. Não somos os únicos a ocupar esta casa, nem seremos os últimos; e é moralmente correto pensar nos outros, quando nos relacionamos com a natureza. Não ficará bem deixar atrás de nós um paraíso depredado, o mundo cheio de lixo, as terras desertificadas, as águas contaminadas, o ar irrespirável, o equilíbrio ecológico comprometido... A CF-2011 é um convite a refletir, para formar uma consciência comum sobre nossa responsabilidade e para tomar decisões eficazes sobre os cuidados que a Terra merece. É nossa casa comum. E ainda será a casa dos que viverão depois de nós.
Cardeal Dom Odilo Pedro Scherer
Arcebispo metropolitano de São Paulo
sábado, 19 de fevereiro de 2011
O Vôo
Goza a euforia do vôo do anjo perdido em ti.
Não indagues se nessas estradas tempo e vento desabam no abismo.
Que sabes tu do fim?
Se temes que teu mistério seja uma noite,
enche-o de estrelas.
Conserva a ilusão de que teu vôo te leva sempre para o mais alto.
No deslumbramento da ascensão, se pressentires que amanhã estarás mudo, esgota, como um pássaro, as canções que tens na garganta.
Canta. Canta para conservar uma ilusão de festa e de vitória.
Talvez as canções adormeçam as feras que esperam devorar o pássaro.
Desde que nasceste não és mais que um vôo no tempo.
Rumo ao céu?
Que importa a rota?
Voa e canta enquanto lhe resistirem as asas.
Menotti Del Picchia
domingo, 30 de janeiro de 2011
Dra Zilda Arns

Há um ano, naquele terrível terremoto no Haiti, onde mais de 200.000 pessoas morreram, perdemos também a incrível dra Zilda Arns, que criou a Pastoral da Criança aqui no Brasil, e foi exemplo para países do mundo todo.
A dra Zilda morreu após ministrar uma palestra para sacerdotes em uma Igreja no Haiti, a qual foi totalmente destruída. Me lembro de ver as imagens dos escombros da Igreja, sobrando somente em pé uma imagem de um enorme crucifixo.
Nesta última palestra, uma das mensagens que ela passou foi:
"Assim como os pássaros que protegem seus filhotes deixando-os em lugares altos em seus ninhos, mantendo-os longe dos perigos e mais perto de Deus, assim devemos cuidar de nossas crianças"
Na época , fiquei muito emocionada com as notícias que vieram do Haiti, e acho que todos ficaram. Eu sempre admirei muito o trabalho da dra Zilda, que com orientações simples , dando informações às mães e cuidadoras de crianças, conseguiu diminuir as taxas da mortalidade infantil aqui e até em outros países. A Pastoral da Criança orienta a alimentação, fornece a multimistura, ensina o soro caseiro, que já salvou milhares de crianças da desnutrição, entre outras coisas. Simples, barato, muito inteligente!
Às vezes, muitos de nós trabalhamos e quando há um problema qualquer, ficamos à espera de que o governo ou alguma autoridade resolva.Não foi o que ela fez: ao perceber que crianças morriam por simples falta de informação às mães, arregaçou as mangas de seus "santos" braços, e pôs mãos à obra, sem esperar que o governo resolvesse isso.
Muitas reportagens e depoimentos da época me chamaram a atenção:
"....se foi a belezinha que amava tanto as crianças..."(Hilda Arns, freira,irmã da dra Zilda)
"...Minha irmã morreu de maneira muito bonita, na causa que sempre acreditou. Que nosso Deus acolha no céu todos aqueles que na Terra lutaram pela crianças e pelos desamparados. Não é hora de perder as esperanças."- Dom Paulo Evaristo Arns
"Há pessoas que não enterramos, e sim semeamos" -frase de Dom Helder Câmara
Eu resolvi escrever um pouco aqui, para lembrar sempre desta grande pessoa, que semeou o amor pela terra, e que fez brotar tantos frutos.
"Bem-Aventurados os que tem fome e sede de Justiça, porque serão saciados(...), Bem-Aventurados os puros de coração, porque verão à Deus. Bem aventurados os que promovem a Paz, porque serão chamados Filho de Deus" Mt 5, 1-12 - Palavras de Jesus Cristo.
domingo, 2 de janeiro de 2011
Madre Tereza

"Se você é gentil,podem acusá-lo de egoísta, interesseiro. Seja gentil assim mesmo!
Se você é um vencedor, terá alguns falsos amigos e inimigos verdadeiros.Vença assim mesmo!
Se você é generoso e franco, podem enganá-lo.Seja bondoso e franco assim mesmo!
O que você levou anos para construir, alguém pode destruir de uma hora para outra. Construa assim mesmo!
Se você tem paz e é feliz, poderão sentir inveja. Seja feliz assim mesmo!
O bem que você faz hoje,poderão esquecê-lo amanhã. Faça o bem assim mesmo!
Dê ao mundo o melhor de você, mas isso pode nunca ser o bastante. Dê o melhor de você assim mesmo!
Veja você, que no final, o acerto de contas é entre você e Deus. Nunca foi entre você e os outros!"
Madre Tereza de Calcutá, Prêmio Nobel da Paz em 1979
sábado, 20 de fevereiro de 2010
O Último Chef Chinês
" Aprendizes já me perguntaram qual é o ponto máximo da culinária refinada. seriam os ingredientes frescos, os sabores mais complexos? Seria o rústico ou o raro? Não é nenhuma destas coisas. O auge não é nem o comer nem o cozinhar, mas sim o oferecer e o compartilhar do alimento. Iguarias nunca devem ser consumidas em solidão. Que prazer uma pessoa pode tirar da culinária refinada se não convidar amigos queridos para comer, se não contar os dias até a realização do banquete e se não compuser um poema auspicioso para a carta com o convite?"
Liang Wei, O Último Chef Chinês, Pequim, 1925
do livro c/ o mesmo nome, de Nicole Mones, ed. SUMA
Liang Wei, O Último Chef Chinês, Pequim, 1925
do livro c/ o mesmo nome, de Nicole Mones, ed. SUMA
domingo, 7 de fevereiro de 2010
Enchentes
No início do ano passado, eu li um artigo no suplemento cultural da revista da APM ( Associação Paulista de Medicina), do advogado e escritor José Carlos Barbuio, que comentava sobre a solidariedade que a sociedade deve ter com relação aos desabrigados. Chamava a atenção para a falta de interesse,quando lavamos as mãos ante as desgraças alheias. Havia acontecido enchentes e desmoronamentos em Santa Catarina. Neste ano, novamente assistimos ao caos que se apresenta agora em São Paulo, e também em tantas outras cidades,como o Rio, Paraná, Angra... Além da trajédia no Haiti
Fui procurar aquele artigo novamente, pois algo nele me chamou a atenção. Era um poema escrito por um anônimo há alguns anos, qdo ocorreu uma terrível enchente na Argentina. Nele, se destaca o poder da solidariedade:
"Eu tinha medo da escuridão
Até que as noites se fizeram longas e sem luz
Eu não resistia ao frio facilmente
Até passar a noite molhado numa lage
Eu tinha medo dos mortos
Até ter que dormir num cemitério
Eu adorava exibir minha nova jaqueta
Até dar ela a um garoto com muito frio
Eu desconfiava da pele escura
Até que um braço forte me tirou da água
Eu achava que tinha visto muita coisa
Até ver meu povo perambulando sem rumo pelas ruas
Eu não gostava do cachorro do meu vizinho
Até naquela noite eu o ouvir ganir até se afogar
Eu não lembrava dos idosos
Até participar de seus resgates.
Eu não sabia cozinhar
Até ter na minha frente uma panela, arroz e crianças com fome
Eu achava que minha casa era mais importante que as outras
Até ver todas cobertas pelas águas
Eu tinha orgulho do meu nome e sobrenome
Até a gente se tornar todos seres anônimos
Eu criticava a bagunça dos estudantes
Até que eles, às centenas, me estenderam suas mãos solidárias
Eu não me lembrava o nome de todos os Estados
Agora guardo cada um em meu coração
Eu não te conhecia
Agora você é meu irmão
Tínhamos um rio
Agora somos parte dele
É de manhã, já saiu o sol e não faz tanto frio
Graças à Deus
Vamos começar de novo"
Fui procurar aquele artigo novamente, pois algo nele me chamou a atenção. Era um poema escrito por um anônimo há alguns anos, qdo ocorreu uma terrível enchente na Argentina. Nele, se destaca o poder da solidariedade:
"Eu tinha medo da escuridão
Até que as noites se fizeram longas e sem luz
Eu não resistia ao frio facilmente
Até passar a noite molhado numa lage
Eu tinha medo dos mortos
Até ter que dormir num cemitério
Eu adorava exibir minha nova jaqueta
Até dar ela a um garoto com muito frio
Eu desconfiava da pele escura
Até que um braço forte me tirou da água
Eu achava que tinha visto muita coisa
Até ver meu povo perambulando sem rumo pelas ruas
Eu não gostava do cachorro do meu vizinho
Até naquela noite eu o ouvir ganir até se afogar
Eu não lembrava dos idosos
Até participar de seus resgates.
Eu não sabia cozinhar
Até ter na minha frente uma panela, arroz e crianças com fome
Eu achava que minha casa era mais importante que as outras
Até ver todas cobertas pelas águas
Eu tinha orgulho do meu nome e sobrenome
Até a gente se tornar todos seres anônimos
Eu criticava a bagunça dos estudantes
Até que eles, às centenas, me estenderam suas mãos solidárias
Eu não me lembrava o nome de todos os Estados
Agora guardo cada um em meu coração
Eu não te conhecia
Agora você é meu irmão
Tínhamos um rio
Agora somos parte dele
É de manhã, já saiu o sol e não faz tanto frio
Graças à Deus
Vamos começar de novo"
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